Notas sobre o cool e o intrigante mundo de Pâmela Martini

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1)    O cool não sobrevive à luz do sol.

2)    Ninguém faz um autorretrato com a câmera do celular para parecer uncool. Mesmo nos casos de autodepreciação, nonchalance, trivialização e frugalidade, a intenção é sempre parecer cool.

3)    O mais importante, anotem aí: nem sempre aquilo que se pretende cool é cool.

Falo do conceito de coolness, que define o cool e ao mesmo tempo delimita as fronteiras do uncool.

Não trato da expressão que quer dizer simplesmente “legal”, ou da interjeição que significa que você está de acordo, tipo “ok”. Tampouco da situação em que alguém pede para que você fique calmo, como em “keep cool”.

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A substância do cool é, primeiramente, uma atitude ou comportamento consciente que se desdobra num conjunto de gestos, movimentos corporais, posturas, expressões faciais e modulações de voz que assumem valor simbólico.

Tal valor fica impregnado em seus agentes. Pode ser o escravo oprimido, o boêmio, o punk raíz, o beatnik, a libertina, o artista, o intelectual, o Malcolm X, a Kate Moss e seus olhares ao mesmo tempo desafiadores e distantes, desprezando qualquer sentido de autoridade.

Elvis, the pelvis. Imagina quando surgiu. Tipo isso.

Na base de tudo há uma atitude contestatória, o que significa dizer que quase sempre é mais disfórico, desconfortável, escuro e racional do que eufórico, confortável, claro e passional. Mas permite exceções porque uma das premissas é que tudo muda rapidamente dependendo do contexto.

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Tudo é imediatamente copiado, sobretudo pelos adolescentes, as antenas mais sensíveis. A indústria (mídia, moda, entretenimento) logo depois tenta se apropriar e, ao fazê-lo, o cool se dissipa.

Em seu hoje histórico artigo na revista New Yorker, em 1997, Malcolm Gladwell observa três coisas a respeito do cool:

  • O ato de descobrir o que é cool é o que alimenta o cool
  • O cool não pode ser manufaturado, apenas observado
  • Cool só faz sentido e só pode ser observado por gente cool

A internet ampliou as fronteiras ao permitir que todos organizem e compartilhem seus repertórios. Mais importante, fez com que as novas gerações recuperassem e incorporassem velozmente as referências do passado.

Assim, o nível de coolness de alguém não se dá mais apenas pela aparência física num terreno de avatares fakes e selfies estudadas, mas cada vez mais pelo conjunto de ideias e de gostos.

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Um dos tipos mais interesses de cool são as pessoas que cresceram sob a égide de um certo clima neogótico que se instalou no espírito do tempo a partir da metade da primeira década do século 21.

Edward Mãos de Tesoura, subcategorias e spin offs. Ou, melhor dizendo, quem gosta de Velvet Underground provavelmente gosta também do combo Jesus and Mary Chain, bondage, masoquismo, Marquês de Sade, Egon Schiele.

Veja o caso de Pâmela Martini, a mulher que tinha tudo para se enquadrar em minha tentativa de caricatura do cool mas que, por causa da beleza e refinamento invulgares, apontam noutra direção.

Nascida há 26 anos em Novo Hamburgo-RS, morou em São Leopoldo-RS e outras pequenas cidades do interior gaúcho, na Alemanha, Luis Eduardo Magalhãe-BA, Luziânia-GO e finalmente São José do Rio Preto-SP, na casa dos pais, onde alimenta um gato epilético de rabo quebrado chamado Chaos e três tumblrs desconcertantes. Uma salamandra pode ser vista correndo pelo ombro da moça em uma das imagens.

Como o cool não resiste à luz do sol, evita sair de casa durante o dia para enfrentar o escaldante clima rio-pretense e não vê a hora em que poderá usar novamente suas meias de látex sem derreter.

A medicina perdeu um talento para o design e as artes gráficas. Estudou design gráfico, jogos digitais e artes visuais no Rio Grande, trabalhou como modelo “para ganhar pilas extras” e hoje produz ilustrações, das quais diz não gostar, e quer “entrar no mercado da arte”.

Venus in Leather 1
Venus in Leather 1

No ano passado venceu um concurso de fomento cultural destinado a jovens artistas, o Nelson Seixas, da prefeitura de Rio Preto, com o projeto Venus in Leather, uma exposição de imagens de mulheres amputadas em contexto sadomasoquista, prevista para o segundo semestre de 2014.

Anda gestando um projeto de quadrinhos com a mesma temática.

Os blogs, by the way, anotem:

Chaos is a human perspective aqui e aqui 

Instável, aos 14 anos criou quatro personagens para definir suas mudanças diárias de humor e estado de espírito e se correspondeu com “amigos”, assumindo suas personalidades. Se você observa as fotos deste post, fica na dúvida sobre se é sempre a mesma pessoa.

Sobre automutilação diz apenas que é algo puramente estético e que, com medo das marcas, acaba fechando tudo rapidinho com uma fita que garante pronta cicatrização. Superou a fase suicida e como todo mundo tem um pouco de TDHA e bipolaridade, mas nunca fez análise e nem toma remédios, apenas estuda avidamente o assunto. Gosta de Marlboro Light e vive distante de drogas pesadas.

Vem de um relacionamento conturbado com o artista francês Jeremie Perin, que num dos momentos mais tensos da relação fez para ela uma animação videográfica em que um homem degola uma mulher e ejacula em sua cabeça cortada. Hoje são os melhores amigos.

Venus in Leather 2
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No combo estão, ditas por ela, referências não tão óbvias e clássicas como Picasso, Egon Schiele, Lucian Freud, Francis Bacon, Iberê Camargo, Suehiro Maruo, Shintaro Kago, Vania Zouravliov e as bandas Flairs, Dye, Radiohead, entre muitas coisas cool que podem ser ouvidas na playlist que rola solta no tumblr.

Gosta de machos dominantes (curte spanking, smothering, gaging, mas odeia acessórios, tem Lou Taylor Pucci, Espen Klouman Hoiner, que não faço ideia de que apito tocam, e Yves Saint Laurent, na fase jovem, como modelos) e fêmeas submissas, mas tudo pode mudar de acordo com o estado de espírito.

O cool, enfim, encontra um novo paradigma. E o cool, vamos combinar, cada um tem o seu.

 

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Atitude e gestual

 

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Chaos  

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Ventilador

 

 

 

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 Látex by Raphael Capella 

 

 

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Leia mais em EPIMENTA

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