Um mundo em que o Whatsapp vale mais que 80 Washington Post

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O Whatsapp não vale nem o W do Washington Post.

A notícia que abalou o mundo dos negócios nesta quarta (19/2), a compra do aplicativo de mensagens instantâneas Whatsapp pelo Facebook por alegados 16 bilhões de dólares precisa ser colocada rápido em perspectiva.

Em 2013, as private social media (Whatsapp é apenas um player) apareciam como uma das dez tendências para este ano no mundo da comunicação.

Gente entre 10 e 16 anos hoje prefere se comunicar no Whatsapp, longe do olhar dos pais e avós que seguem no Facebook, que aliás continua crescendo.

Mark Zuckerberg detectou a tendência muito antes de todos os analistas e, por questão de sobrevivência, começou a se preocupar, sobretudo porque todas as suas tentativas do tipo instant message (Poke/cutucada entre elas) não arrasaram Paris em chamas.

Foi um namoro demorado, Mark jantou (e pilotou sessões peripatéticas pelo Vale do Silício) dezenas de vezes com Jan Koum, o dono do Whatsapp. Nick Bilton, do New York Times, garante que o negócio foi fechado, depois de longas negociações, durante uma sobremesa nerd de chocolate e morango preparada pela Mrs. Zuckerberg.

É bizarro que os grandes feitos do mundo dos negócios aconteçam hoje num ambiente tão ostensiva e assumidamente cafona.

O dono do Facebook se fia na crença de que o valor do seu negócio reside no grande número de pessoas que interagem em sua plataforma e a consequente posse das informações que essas mesmas pessoas se dispõem a dar a ele por usá-la.

Ele acha ainda que pode competir com o Google, na hipótese de que a base de facebookers um dia possa ser tão imensa e fiel a ponto de que todos façam suas buscas ali dentro, presumindo que os conteúdos referenciados pelos usuários da rede possam ter uma camada extra de valor.

Quando uma nova geração como a da minha filha de 12 anos e seus amigos quer sair do FB, Zuckerberg vai lá e compra a plataforma para a qual eles haviam migrado. Compra pelo valor de 80 Washington Posts.

Quantas centenas de Posts ele poderá pagar em dinheiro futuro para neutralizar a tendência óbvia de que as pessoas são livres e buscarão sempre a liberdade, apesar de até curtirem a ótima plataforma que ele criou, prenhe de nobres intenções? O fato é que, numa rápida projeção futura, ninguém está muito aí para o Facebook: se os hipsters estão matando seus perfis, olho neles, há uma tendência aí.

Ou seja, o negócio de Zuckerberg está, como todos estamos, com os dias contados.

Dias contados = old media (TV, jornais, revistas).

Mas são a velha mídia e as novas, estas com seus incipientes modelos de crowdfunding e coletivos/narrativas independentes, que movimentam as redes sociais.

Tirando selfies, autoindulgências, dizeres piegas, fotos de comida e pôr do sol, o que move o interesse nas redes (para o bem e para o mal) são conteúdos produzidos por gente remunerada para escrever, desenhar e fotografar para o New York Times, Reuters, Condé Nast, Time Inc., Hearst, HuffPo, Folha, Estadão, Globo, Abril, assemelhados e a blogosfera a soldo de diversos grupos de interesses.

Pouca coisa relevante se cria no éter espontâneo das redes sociais, exceto humor coletivo, insights aqui e ali e grupos em torno de boas causas. Na direção oposta, o lixo simplesmente não para de brotar. Minha opinião: as empresas e o mercado publicitário já entederam essa obviedade.

A pergunta que não quer calar: quanto valerão hoje o SnapChat (que o Facebook já tentou comprar por U$ 3 bilhões) e o WeChat chinês (um app considerado tecnicamente melhor que os concorrentes), plataformas firmes nessa briga pela mudança de comportamento do usuário? Valerão em espécie a todalidade da mídia ocidental?

Vai levar um tempo, mas não muito, para que fique evidente que os valores surreais e descolados da economia natural pagos por penduricalhos tipo Whatsapp são espasmos circunstanciais, exclusivamente atrelados à necessidade de sobrevivência dos compradores.

O Whatsapp, em perspectiva, não vale nem o W do Washington Post (comprado pela Amazon por U$ 250 milhões), que revelou ao mundo o escândalo de Watergate. Não vale nem o G do Guardian, que botou no ventilador o caso Snowden e que, como seus congêneres, tem a finalidade de construir um mundo de pessoas livres.

Quem viver verá.

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