O comensal elementar

The Roses Never Bloomed So Red, de Adam Miller, óleo sobre tela
The Roses Never Bloomed So Red, de Adam Miller, óleo sobre tela

Bandit sempre demonstrou interesse pelo quinto gosto básico, o umami, que não é doce, azedo, amargo ou salgado. A palavra, de origem japonesa, não tem tradução e representa o gosto do aminoácido L-glutamato, o carreador universal da delícia.

Drunk Mom, a mulher com a qual se casou, tinha um jeito diferente de perceber as reações químicas. Era desprovida de apetite, apenas executava as receitas, obedecendo burocraticamente às medidas.

Bandit foi uma criança colecionadora de partículas de queratina e depois passou às cédulas de rublos, coroas e pesetas, flâmulas de times de futebol e maços de cigarros vazios abandonados pelos turistas.

Com dez anos já pensava em ter filhos, queria-os bonitos, que não se tornassem idiotas digitais e fossem capazes de se interessar minimamente pelos seus escritos.

Aprendeu que não devia fazer comentários depreciativos sobre negros e autóctones e, antes dos 20, fundou a primeira start-up.

Era exatamente o tipo físico definido por Jean Anthelme de Brillat-Savarin: o comensal elementar, atarracado e bochechudo. Com o passar do tempo, assistiu à degeneração de sua virilidade. Em compensação, logrou publicar o LIVRO.

É o que foi possível apurar, até o momento, com base nas informações da espionagem americana. Era verdadeiro o “casamento aberto” com Drunk Mom, já íamos esquecendo. Antes que alguém pergunte, o LIVRO nada tinha de erótico, era antropologia pura.

Bandit sustentava a teoria de que determinados tipos de gordura, amalgamados em condimentos e féculas, tinham o poder de se transformar em felicidade suprema, como o bife bourguignon e os cozidos que em geral levava quinze horas para preparar.

Outra teoria dizia que um conto deveria ser escrito preferencialmente em terceira pessoa, a não ser nos casos em que uma poderosa voz se impusesse; teria ainda de ter uma pitada de contexto e, mais importante, caldo.

Eis que o envelope corrido por debaixo da porta e colhido pelas mãos da governanta chega ao escritório onde Bandit está urdindo a história de três mil caracteres encomendada pela revista.
Ele abre o convite com destreza e percebe logo tratar-se de um daqueles convites irrecusáveis para os quais se envia antecipadamente o paletó ao tintureiro.

Drunk Mom sofreu com as intermináveis sessões de cozimento e os vapores impregnando as almofadas e as roupas. Sofreu com a literatura brasileira, com a qual sempre disputou a atenção dele – e perdeu.

Beber, aos poucos, foi o modo mais confortável de aturar o marido que vivia destemida e exclusivamente para suas próprias delícias. Mas ela morreu no parto e não, como se poderia supor, cheirando as gordas carreiras de que gostava e mais toda aquela vodca.

Chaves de casa, carteira, celular, ninguém mais vive sem celular, os táxis não aparecem quando precisamos deles, serão mais o menos vinte minutos até que Bandit finalmente adentre a sala de espetáculos onde já começou a cerimônia de entrega do PRÊMIO, suba ao palco em passos decididos, arfe um tantinho e receba das mãos de Lázaro Ramos, por causa do LIVRO, a láurea de cem mil reais que tanta inveja despertará entre os congêneres.

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