Lady Godiva

Vanity Fair’s Lady Godiva-esque shot of 19-year-old Gisele Bündchen in the January 2000 issue, by photographer Walter Chin.
Gisele Bündchen, aos 19 anos, na Vanity Fair (Jan/2000), fotografada por Walter Chin

Teve uma época, no teatro, em que tirar a roupa era uma questão obrigatória. Um ato político.

Era também uma transgressão que, acho, deve ter acabado logo depois de Antonin Artaud. Se bem que a montagem de Pour en finir avec le jugement de dieu, pela companhia de José Celso Martinez Corrêa, encenada no teatro municipal de Rio Preto, escandalizou várias “professouras” e seus maridos. Eu estava lá, não faz tanto tempo.

Na década de 70 apareceram os streakers, aqueles malucos que de repente saíam correndo em desabalada carreira completamente nus em eventos públicos, um pelotão de policiais atrás.

Hoje o nu é uma commodity, mas protestos pelados crescem: contra o envio de tropas ao Afeganistão, contra o consumo de carne, contra o uso de peles animais, contra as touradas, por mais ciclovias, contra o Aquecimento Global (como se alguém pudesse ser a favor), pelo direito ao aborto.

NAN GOLDIN b. 1953 Kate Moss on a White Horse as Lady Godiva, Highgate Cemetery, London
Kate Moss num cavalo branco como Lady Godiva, Highgate Cemetery, London, por Nan Goldin

Em 1991 andei pelas ruas de Maidstone, na Inglaterra. Posso eventualmente ter pensado em visitar o museu da cidade, com sempre faço, mas imagino ter andado com os ânimos um pouco alterados na ocasião; um jovem cheio de músculos e poucas perspectivas invariavelmente prefere gastar o tempo consumindo a cerveja do condado de Kent.

Se tivesse visitado o museu teria provavelmente visto a estátua equestre de Lady Godiva. Teria sido, talvez, o primeiro contato com uma representação artística da lenda segundo a qual uma aristocrata do século 11 teria desfilado nua em cima de um cavalo para protestar contra os altas taxas impostas à população por seu marido, o duque de Mercia.

Mentira, em 1987 já tinha a Katia Flávia, Godiva do Irajá.

Todos os caminhos, portanto, levam a Lady Godiva. Mas não é exatamente assim.

 

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Estátua equestre do século 19, obra de John Thomas que está no Maidstone Museum, no condado de Kent, Inglaterra; há outra em Conventry, em praça pública

A história apareceu primeiro no Flores Historiarum, de Roger of Wendover, no século 13:

“Tendo fundado o mosteiro (em 1057) pelo conselho de sua esposa, a nobre condessa Godiva [Godgifu, presente de Deus, em inglês arcaico] ele [o conde Leofric] trouxe monges que logo o enriqueceram com o cultivo de bosques e ornamentos; não havia na Inglaterra um mosteiro com tal abundância de ouro e prata, gemas e roupas caras.

A condessa Godiva, devota de Nossa Senhora, queria livrar a cidade de Coventry da opressão de um pesado tributo. Muitas vezes suplicou ao marido para que diminuísse os impostos. Leofric a repreendeu e proibiu que continuasse falando sobre o assunto, mas Godiva continuou exasperando o marido com a questão.

Até que um dia Leofric disse: ‘Se você montar nua o seu cavalo e desfilar pela rua central terá o seu desejo realizado quando retornar.” Ao que ela perguntou: ‘Mas você me dará permissão, seu eu estiver disposta a fazê-lo?’. E ele permitiu.

Diante disso, a condessa soltou o cabelo, que como um véu cobria todo o seu corpo, e em seguida montou o cavalo. Com a escolta de dois cavaleiros, cavalgou pelas ruas do mercado local, sem ser vista, e tendo completado a viagem, obteve do marido a realização do seu pedido.”

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Lady Godiva (1898), de John Collier (1850 – 1934)

Uma crônica do século 14, escrita por Ranulf Higden, diz que, como resultado, Leofric suspendeu todos os impostos, exceto aqueles que tinham relação com a posse de cavalos. Um relato posterior acrescenta à história o fato de que Godiva havia solicitado aos habitantes da cidade que permanecessem dentro de casa durante seu passeio.

No século 17, a figura do Peeping Tom (o Tom Voyeur) se tornou parte da lenda: ele teria ficado segue ao espiá-la pela janela. Até o século 18 a história havia assumido sua versão atual.

No século 20, uma estátua de gosto duvidoso foi erigida em Conventry, na frente de um shopping center. E também virou marca de chocolate.

Hoje há uma pseudo-Godiva em cada esquina.

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