Queridão

Queridão, olha só: Pablo Picasso e Jean Cocteau curtem uma tourada em Vallauris, França, 1956 (Foto de Patrick A. Burns/RDA/Getty Images)

Quando eu era criança, um homem de quarenta anos era muito velho. Agora, com quarenta e poucos, eu me acho uma criança. Os de sessenta, aliás, são jovens em seus bonés de baseball. Ou seja, as pessoas praticamente não morrem mais. Mas acontecem algumas coisas.

Se aos cinquenta e poucos ele não é rico, nenhuma mulher de menos de trinta o tem como primeira opção. Mas, se ela quiser algo, esse homem vai achar que aquilo não está certo. Vai lembrar de quando tinha bíceps, ereções involuntárias na fila do banco, aquele gesto que os italianos fazem com o braço, rente.

Se for uma doutoranda-sanduíche, mais complicado, via de regra aquilo significará para ela um ato de libertação que terá de vir acompanhado de uma “experiência” que ele talvez não saiba — e nem queira — proporcionar.

Está na hora da aula da graduação, preciso descer.

— As comunidades esquimós têm 56 designações diferentes para…

(No outro dia)

Segunda-feira é dia de limpar a mesa. Já disse ao bedel que essas bobagens não devem entrar no departamento. Lançamento de livros, restaurantes que orgânicos florescendo em volta do campus, “flyers” de academia de ginástica. Saudade do tempo em que o Kovaleski mandava cortar essa putaria. O americano diz cut the fuck bullshit out.

O meu colega de sala aqui no departamento é o energúmeno mais completamente desprovido de inteligência que a universidade brasileira já estipendiou. Não se sabe por qual desígnio sobrenatural o sujeito acha que o Julinho de Adelaide, melhor dizendo, o eu-lírico feminino do Julinho de Adelaide, é a chave para a compreensão da política brasileira. Política musical.

Não me entenda mal. O fato de ele ser uma bicha decadente não interfere no julgamento. Ele é só — e antes de tudo — um energúmeno. Acho que posso dizer isso, por enquanto. Embora minha impressão seja a de que ele acha que eu acho que ele é brilhante. Eu acho que ele que acha que eu sou inteligentíssimo, apesar de velho. E, conforme já disse, acho que ele é um energúmeno.

Mas isso, queridão, não tem a menor importância.

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Um comentário sobre “Queridão

  1. rapaz,

    cheguei aqui por conta do picasso (procurava um ossuário dele feito na décda de quarenta), mas achei muitas coisas tão interessantes quanto.

    adicionei aos favoritos, por conta do envelhecimento e de ser professor, e do charme que, frequentemente, envolve a profissão e o contato com as doutorandas sanduíche

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