Ainda não parei de chorar com Tito Mainardi

Tito e Diogo, em retrato de Karime Xavier

Hoje é um sábado ensolarado e, no momento em que termino a leitura das memórias de Mainardi sobre seu filho — é sobre Tito, que tem paralisia cerebral, mas não só — observo os meus brincando pela casa. Engulo o choro, é difícil, eles são perfeitos (apesar do Theodoro ter nascido surdo e estar aos poucos desenvolvendo a fala, graças a um implante coclear feito quando ele tinha um ano, em 2009), vão se criando, o tempo escorre e jamais fiz qualquer reflexão profunda sobre a paternidade.

O livro encerra um paradoxo. O nascimento de Tito, que por causa de um erro médico teve todas as suas funções motoras comprometidas, exigindo doação imediata e completa dos pais, transformou a vida do autor a ponto dele afirmar reiteradamente, ao longo do relato, ter abandonado veleidades pessoais e literárias. No entanto, este é o seu melhor livro.

Acompanho Mainardi desde o começo, há obviamente momentos de inspiração em Polígono das Secas, Malthus e Contra o Brasil, mas não estão à altura deste A queda, pelo menos em termos de maturidade literária, clareza e concisão.

É um livro ambicioso. Os fatos da comovente trajetória do filho dialogam com referências literárias e históricas, em registro alternadamente erudito e pop, e a conhecida ironia do autor permanece intacta, ainda mais fina. Fotografias e fac-símiles ajudam a construir o argumento, uma grande sacada.

As imagens do livro não são ilustrativas. Têm setas vermelhas indicando o detalhe tratado no texto. Lembra um expediente comum nos blogs ou mesmo nas páginas de um Sebald, famoso por valer-se de fotos ou ilustrações para contar a história. Estão lá os registros de Proust morto (Man Ray), do funeral de Ezra Pound em Veneza, Christy Brown, Christopher Nolan e os registros domésticos de Tito em família.

O que mais me emociona em A queda — além, é claro, do amor incondicional do pai e a habilidade de elevar suas memórias a um patamar universal — é a competência de sugerir que todos os fatos da história podem estar relacionados aos nossos dramas pessoais e que o relato da vida de uma criança é capaz de mostrar como nossa soberba é ridícula.

A noite caiu e eu ainda não parei de chorar.

Se ainda não leu, faz o seguinte: leia.

Você vai acabar lendo de qualquer jeito, o livro acaba de sair e já vendeu mais de 50 mil cópias, a vendedora da livraria do aeroporto fez aquela expressão grave de quem conhece a obra pelo título, A Queda (Record, 150 páginas, R$ 29,90), disse a frase que todo autor sonha ouvir: “tem, mas acabou”.

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3 comentários sobre “Ainda não parei de chorar com Tito Mainardi

  1. O mainardi é um ser político dos mais baixos. Agora canta de coitado e pai devotado. Para cada cabeça uma espada. Cada um emociona-se com o que quer, mas vindo de um pai como este eu prefiro nem abrir tal livro.

  2. “Para cada cabeça uma espada”. Que tipo de comentário é esse? Cara, como meu pai costuma dizer, a inteligência tem limites, mas a ignorância não…

    Parabéns Edward, mais uma vez, pela análise primorosa.

    abs

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