Vila-Matas: fracasso e literatura, juntos [FLIP]

Vila-Matas, na leitura do sábado (7/7): Tabucchi, escritores malogrados e Ar de Dylan

Na noite do sábado (7/7), o escritor espanhol Enrique Vila-Matas leu três textos: um tributo a Antonio Tabucchi (1943 – 2012), um ensaio sobre a suposta morte da literatura e uma apreciação da evolução de sua própria produção literária desde História abreviada da literatura portátil (1985) até o recém-lançado Ar de Dylan.

Em vários momentos, as palavras de Vila-Matas se conectavam com o que havíamos conversado no dia anterior. Fui até ele para tratarmos basicamente de uma única questão: o fracasso na literatura, tema recorrente em sua obra, muito presente em Ar de Dylan, livro que terminei de ler em Paraty.

Ar de Dylan é sobre o escritor que vai a um congresso sobre o fracasso e encontra o camaleônico Vilnius Lancastre, um jovem Bob Dylan espanhol que deseja ardentemente fracassar na leitura de seu discurso, um relato sobre a morte recente de seu pai. Mas Vilnius não consegue fracassar totalmente; o escritor, atônito, não consegue deixar o auditório.

— O senhor está dizendo que literatura e fracasso andam juntos?

— Sim, estão intimamente ligados. A literatura pretende compreender o mundo, quer abarcar tudo, buscar todas as respostas. Mas os escritores, ainda que não confessem, frequentemente não conseguem êxito. Seria interessante se conseguíssemos fazer um mapa dos fracassos dos escritores, de seus fracassos íntimos.

— O que quer dizer com fracassos íntimos, senhor Vila-Matas?

— Há pequenos fracassos mesmo quando se trata de um romance aparentemente bem-sucedido, por exemplo. Só o próprio autor os conhece e é raro que os admita publicamente. Um autor verdadeiro, disposto a correr todos os riscos, sempre fracassa porque sempre pensará que poderia ter feito mais em busca da melhor expressão. Os críticos podem dizer isso ou aquilo sobre um livro mas jamais conhecerão suas verdadeiras fraquezas, seus fracassos íntimos.

— O senhor já confessou seus fracassos?

— Sim, talvez eu tenha confessado entre amigos escritores alguns de meus fracassos. A escritora britânica Zadie Smith pediu a dez autores que escrevessem sobre seus fracassos literários. Prometeu jamais divulgar seus nomes, buscava apenas subsídios para escrever um artigo intitulado Fail better, parafraseando Beckett. O resultado foi um pequeno mapa de fracassos e decepções que é útil ao escritor interessado em escrever melhor.

— A vida, como a literatura, está cheia de fracassos…

— Quando jovens temos projetos extraordinários que nem sempre conseguimos levar a cabo. Nesse sentido, a vida também está cheia de fracassos, o que não significa nenhuma tragédia. Mas estou falando de fracassos pessoais, não o fracasso social de perder o emprego, de não ter dinheiro para comprar um carro, não se trata da obsessão americana pelo fracasso social, embora observe que na Espanha, onde vivo, essa cultura tenha crescido.

— Quem é o maior fracassado da história?

— Não é fácil ser o pior. Em Ar de Dylan cito o diretor de cinema Edward Davis Wood, Jr., o Ed Wood, e a história de Barton Fink (filme dirigido pelos irmãos Cohen). Mas um dos exemplos mais extraordinários talvez seja o poeta escocês William McGonagall, tido como o pior poeta da língua inglesa, há uma placa em sua homenagem na sua cidade natal.

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Proust Questionnaire com Enrique Vila-Matas

Sua virtude preferida – “A que os outros decidirem”.

Suas qualidades preferidas em um homem – “A virilidade, a inteligência aliada à vontade e a generosidade”

Suas qualidades preferidas em uma mulher? – “A feminilidade”

Seu principal defeito? “Se soubesse, trataria imediatamente de corrigi-lo”

Sua ideia de felicidade? – “Temo que a felicidade seja muito chata”

Onde gostaria de viver? – “Sempre digo que gostaria de viver em Nova York, mas se lá vivesse provavelmente pensaria em Paris. E se vivesse em Paris provavelmente pensaria em Nova York ou Barcelona. É mais ou menos como no poema do Pessoa, Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Seus autores favoritos?  – “Kafka, Pessoa, Borges, Nabokov, Perec”

Seus heróis preferidos na ficção – “Gosto muito do narrador de O Grande Gatsby”

Sua bebida preferida? – “Conheci e apreciei muitos tipos de bebidas, gostava de whisky.  Hoje não bebo”

Qual o seu estado de ânimo atual? – Relaxado, contente e gostando muito do lugar onde estou. Mas, em geral, há uma hora crítica do dia, oito da noite, em que penso sobre os problemas, é a hora mais intranquila”

Seu lema – “Je Responderay!”

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