Sobre a epígrafe em Serena, de McEwan [FLIP]

O britânico Ian McEwan divide mesa da Flip com Jennifer Egan neste sábado (7/7)

Fiquei embasbacado ao ler o conto Hand on the shoulder que McEwan publicou na edição de 23 de abril da revista New Yorker. Imediatamente compartilhei aqui.

O conto é, na verdade, uma espécie de teaser, uma história pinçada do romance Serena, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Nos EUA e Europa só sairá em setembro.

Serena é sobre a aluna de Cambridge que, aos 21 anos, conhece um professor de 54 que primeiro se torna seu amante para depois indicá-la ao serviço de inteligência britânica.

E Serena se torna uma espiã.

Publico, de novo, um trecho do conto em que ela se refere ao professor:

“Como amante? Bem, obviamente não tão energético quanto Jeremy. E apesar de que Tony pudesse estar em boa forma para sua idade, fiquei meio assim quando vi pela primeira vez o que 54 anos podem fazer a um corpo. Ele estava sentado na beirada da cama, dobrando-se para tirar a meia. Seu pé descalço parecia um velho sapato usado. Vi dobras de carnes em lugares improváveis, mesmo embaixo de seus braços. Estranho não ter me ocorrido que eu estava ali olhando para o meu futuro. Eu tinha 21 anos”.

TGA

Abri o livro e, surprise, dei de cara com esta epígrafe: “Se pelo menos eu tivesse encontrado, em toda essa busca, uma única pessoa claramente má.”

A frase é retirada do livro The File: A Personal History, publicado pelo jornalista britânico Timothy Garton Ash, em 1997.

The File é sobre o próprio Garton Ash, hoje colunista do Guardian, esquerda classuda, autor de diversos livros importantes, seus artigos são publicados no Brasil pelo Estadão.

Garton Ash viveu em Berlim antes da queda do muro e, quinze anos depois, voltou lá para investigar o dossiê que a polícia da Alemanha Oriental havia produzido sobre ele.

Imagino que deva ter sido uma leitura inspiradora para o autor de Serena.

Faz uns cinco anos, escrevi para Garton Ash convidando-o para fazer uma palestra na Editora Abril. Ele topou, mas tinha uma condição: que eu o levasse para conhecer uma favela em São Paulo.

E lá fomos, Garton Ash e eu, à favela do Real Parque. Ele falou com todo mundo, entrou nos casebres, tirou fotos da lan house e escreveu este artigo. Nunca mais nos falamos.

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