Análise semiótica da sexta — Bárbara Evans

Bárbara Evans, estrela da edição de dezembro da Playboy brasileira

Então vamos começar com um bom clichê, lembrando o primeiro parágrafo do livro mais famoso de Vladimir Nabokov:

“Lolita, luz de minha vida, fogo em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços foi sempre Lolita.”

Lolita, como andei falando neste post, subjugou a cultura popular com seus encantos irresistíveis. E, no caso em questão, parece ter sido uma das muitas inspirações do fotógrafo Bob Wolfenson no ensaio que fez com Bárbara Evans para a edição brasileira da Playboy de dezembro.

Uma lindíssima inspiração, diga-se.

Olhando atentamente, você percebe que ela está entretida com a leitura daquilo que pode ser um romance ou um livro de contos eróticos. Interessante que um dos posts mais vistos deste blog é justamente a (suposta) imagem de Scarlett Johansson concentrada na leitura.

Aproximando ainda mais o olhar você vê detalhes muito interessantes, entre eles um pedaço da capa do livro. Um livro que tem como personagem principal um certo Horace Catskill.

É possível que Bárbara Evans estivesse, naquele exato momento, lendo o seguinte:

***

Morbocornudo

Ele dorme com dois revólveres embaixo do travesseiro. Não passou um único dia de sua vida adulta sem rivotril. Ressona. Tinha mandado dois lexotans e amargava o desconforto de sua couchette. Havia o temor de que o lenhador alsaciano que fora pego no meio do caminho desabasse sobre ele com tantos resfôlegos. Horace Catskill nasceu do ventre de uma mulher chamada Maria, mamou naqueles seios e depois, ao descobrir-se organismo vivo, não tardou para que caísse na vida e fosse felado por uma outra mulher de mesmo nome.

Estava com a cabeça cheia de sexo e o nariz entupido com o cheiro das meias do lenhador. Como qualquer bactéria, HC é um ser necessário. Não mais nem menos necessário do que um hipopótamo, uma alga ou filósofo sartriano. Bêbado, prestava seus melhores serviços à humanidade. Gastava seu precioso latim em pensamentos elevados sobre as mulheres. Entre eles, o de que só mesmo um homem obnubilado pelos clamores primitivos do gozo se sujeitaria a rastejar atrás de um espécime de ombros estreitos, ancas largas, estatura desprezível e nenhum pendor para o trabalho intelectual.

HC, o homem que nunca admitiu ter o pescoço escanhoado, contraiu núpcias assim que chegou a Nantes. Bastaram dois meses para que um homem de hábitos feito ele chegasse à conclusão de que casar é irresistivelmente cômodo. Quando o senhorio tocava a campainha, ele se mandava. A mulher, nos afazeres, atendia à porta quase sempre com o grosso avental molhado do tanque.

Tinham sempre muito a tratar; ela desatava os laços e pendurava a peça ao mesmo tempo em que enxotava as crianças para brincar na rua, exibindo um peignoir translúcido de puído. Era o tipo mignon. Ele, cromagnon. Ela dava conta dos sorvetes, figos e tâmaras secas que o homem trazia nas mãos e só depois iniciava os trabalhos.

O velho árabe fodia aquelas carnes impiedosamente, em exatas duas horas. Horace Morbocornudo Catskill voltava sempre no mesmo horário, a tempo de acenar com o chapéu ao satisfeito senhorio, que, com passos lentos e discreto sorriso, deixava o bairro para trás.

***

O autor do livro ficou matutando horas sobre como O Homem que não Gostava de Beijos tinha ido parar nas mãos de Bárbara Evans. Concluiu que talvez tivesse sido obra do diretor de arte da Playboy, o Alexandre Ferreira, finíssimo leitor e esteta requintado.

Não importa.

Está contada a história de como Horace Catskill e Bárbara Evans se encontraram pela primeira vez.

Mais sobre O Homem que não Gostava de Beijos aqui.

Leia também:

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

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11 comentários sobre “Análise semiótica da sexta — Bárbara Evans

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